Andressa Guerra Rothen Silveira
Formada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná em 2002, com curso de extensão na École nationale supérieure d'architecture de Paris-Val de Seine, atuação na área de Urbanismo e Infra-estrutura pelo Paranacidade em 2004 e autônoma na área de Arquitetura e Interiores desde então.
ANTEPASSADOS, CONCEITOS E ARQUITETURA
Quando erros culturais interferem nos projetos arquitetônicos, prejudicando o bem-estar das edificações e gerando custos extras.
Primeiro vou contar uma breve história a respeito do que me levou a escrever sobre esse assunto.
Quando eu e minha família viemos morar em Mato Grosso, vindos de Curitiba no Sul do país, eu obviamente notei uma diferença imensa na arquitetura da região. Percebi que as edificações residenciais tinham telhados altos e passavam a percepção de que eram casas com dois ou mais pavimentos. Então, conversando com a população local, descobri que eram residências térreas e que os telhados altos tinham como propósito deixar os espaços mais frescos. Foi então que lembrei de algumas referências de lugares quentes, como as antigas edificações do Mediterrâneo e as edificações de lugares frios, como os Alpes Suíços. Me recordei de um professor que sempre dizia que deveríamos pensar porquê os nossos antepassados faziam daquela forma, se eles estavam certos ou errados, se os ensinamentos deveriam ser levados em conta ou não.
Lembrei também de uma matéria da época da faculdade, Conforto nas Edificações que, de forma reduzida, dizia que quando projetamos devemos levar em conta o clima da região, a posição do Sol, os ventos dominantes, umidade e outras variantes naturais importantes, com o propósito de deixar essas construções confortáveis e protegidas das intempéries, utilizando a menor quantidade possível de tecnologia que amenizem essas variantes, ou seja, utilizar o projeto em seu favor.
Voltando ao assunto dos Telhados do Norte de Mato Grosso, questionei: por que utilizamos telhados com alta inclinação se a área de absorção dos raios solares fica muito maior, trazendo para dentro da edificação muito mais calor? Por que utilizamos telhados escuros, se as cores mais pigmentadas também absorvem mais calor? Talvez fosse o material que tínhamos disponível na época, ou o falso pensamento de que telhados altos traziam mais conforto térmico, porque seguindo o ensinamento dos povos antigos do Mediterrâneo, casas em lugares quentes deveriam ter a menor área de absorção solar possível, ou seja, uma laje plana e a cor mais clara possível.
Só para exemplificar como em climas frios o conceito também era aplicado, temos a foto de Hallstattn na Áustria, onde percebemos a alta inclinação dos telhados, que possibilita o deslizamento da neve e a cor escura que absorve mais o calor.
Por isso, muitas vezes me questiono porque deixamos conceitos extraordinários e de certa forma tão simples como esse de lado? Por que não prestamos atenção nos ensinamentos antigos?
É claro que um pé direito (altura do piso ao teto) alto, deixa o ambiente mais fresco, o que é diferente de telhados muito inclinados. Contudo também devemos levar em consideração que ambientes climatizados com o pé direito alto interferem muito na potência do aparelho de ar condicionado que será utilizado. Essa informação raramente é passada para o cliente, o que de certa forma gera um custo mais alto e desnecessário.
É evidente que essas informações não podem ser fatores limitantes para a criação, mas também não podemos ignorar o fato de que deveriam ser fatores relevantes na concepção de qualquer projeto arquitetônico.
Espero que tenham uma boa reflexão. O legado dos nossos antepassados não deveria jamais ser descartado sem uma criteriosa análise.