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Eder José da Silva
Engenheiro Agrônomo pela Universidade do estado de Mato Groso e MBA em Gestão de Marketing e Vendas pela Puc/MG

MILHO O NOVO OURO DO MÉDIO NORTE MATO-GROSSENSE

A colheita de milho segunda safra da temporada 2018/19 em Mato Grosso está na reta final da área plantada no Estado, estimada em 4,741 milhões de hectares, segundo o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). Os trabalhos estão adiantados em relação a igual período do ano passado, quando tinham sido concluídos em 85,5% da área cultivada principalmente no médio norte, com 94% da áreas colhidas. A região é a principal produtora de milho de Mato Grosso. A estimativa de produção é de 29,365 milhões de toneladas, um crescimento de 6,46% sobre a safra anterior.

Milho

O milho participa da alimentação mundial há aproximadamente 7.300 anos, os primeiros cultivos foram feitos em ilhas próximas ao litoral mexicano, mas rapidamente a cultura se espalhou por todo o país e posteriormente em países da América Central com clima propício para seu cultivo, como o Panamá, e também pela América do Sul, mais precisamente no sul do Peru, grânulos de milho foram encontrados há quatro mil anos, revelando que há cerca de 40 séculos, pelo menos, já se cultivava o alimento por essa região do continente. No entanto, com o período de colonização do continente americano e as chamadas grandes navegações que ocorreram durante o século XVI, o milho se expandiu para outras partes do mundo, se tornando um dos primeiros itens na cultural mundial. Com a chegada de Colombo ao continente americano, o milho embarcou em direção a Europa e se consolidou como fonte alimentar das populações mais humildes. Nos dias atuais este cereal faz parte direto ou indiretamente da alimentação de toda população mundial.
No país o milho já era cultivado pelos índios antes mesmo da chegada dos portugueses, já que eles utilizavam o grão como um dos principais itens de sua dieta. Mas foi com a chegada dos colonizadores, cerca de 500 anos atrás, que o consumo do cereal no país aumentou consideravelmente e passou a integrar o hábito alimentar da população. De acordo com a Fundação Joaquim Nabuco, no período Brasil-Colônia, os escravos africanos tinham no milho, além da mandioca, como um de seus principais alimentos.

Em Mato Grosso

O cultivo do milho, em escala comercial em Mato Grosso, pode ser considerado atividade recente assim como a soja se deu início na década de 70, que trouxe para o Mato Grosso agricultores de diversas regiões do país, especialmente do Sul. O cultivo da soja foi o objetivo principal do agricultor quando de sua vinda para o Mato Grosso, porém, por necessidades e busca de novas alternativas, inúmeras espécies agrícolas foram avaliadas, dentre elas o milho. Devido a sua grande utilização e importância na alimentação animal e humano, seu cultivo sempre foi realizado, porém, em pequena escala. Com o surgimento de agroindústrias no Sul do Estado mato-grossense, na década de 80 e 90 gerou-se uma demanda de milho, incentivando sua produção. O principal sistema de produção de milho no Mato Grosso é o chamado de cultivo safrinha, com implantação logo após a colheita da soja, realizada em janeiro e fevereiro. O desenvolvimento de tecnologias de produção agrícola juntamente com as condições de ambiente favoráveis possibilita a realização de dois ciclos produtivos, que com certa estabilidade produtiva tem ocorrido crescimento de área cultivada.
A produtividade do milho é influenciada principalmente pela disponibilidade hídrica de cada ano agrícola, já que a finalização de seu ciclo produtivo ocorre sem a presença de chuva. Em alguns anos, o fim do período de chuvas pode ocorrer de março e abril, e desse modo, tem-se grandes perdas de produtividade. A frequência dessa deficiência hídrica, de acordo com a média histórica é ao redor de 20% a 25%. Semeaduras de milho após 25 de fevereiro têm maior risco de perda por deficiência hídrica, especialmente em certas regiões do Estado e em solos deficientes de estruturação, fertilidade e com sistema de plantio direto deficiente em termos de produção de cobertura vegetal. Atualmente, Mato Grosso é o maior produtor do cereal no país, sendo que em 2023, o cultivo deve atingir 6,9 milhões de hectares, neste cenário a produção mato-grossense de milho chegaria perto de 43 milhões de toneladas e superaria a de soja na temporada 2022/2023. A participação do mercado interno local no consumo da produção do Estado passaria, em cinco anos, dos atuais 17% para 23%.
    
Etanol de Milho no Mato Grosso

O cultivo de milho nos anos anteriores no Estado de Mato Grosso era apenas uma cultura de sucessão a soja para não deixar o solo desprotegido com pouca reciprocidade financeira para o agricultor, devido aos baixos preços da cultura. Hoje, o cenário é outro: a cultura do milho protagoniza uma revolução na economia de Mato Grosso, voltando a trazer esperança aos produtores de milho. Essa mudança nos rumos do setor tem sido gerada em função da viabilidade das usinas de etanol de milho, que tem se multiplicado no Estado.
As usinas de etanol de milho tem gerado uma verdadeira euforia nas regiões onde têm sido instaladas. Na verdade, acredita-se que elas têm sido responsáveis pelo mais forte processo de agroindustrialização do Estado de Mato Grosso nos últimos 20 anos.
Essa ascensão, perceptível no momento principalmente no médio-norte do Estado, tem uma relação direta com a demanda crescente de etanol no Brasil, em função principalmente da nova política de preços da Petrobras, implementada pelo Governo Federal a partir de 2016, que parou de subsidiar o preço da gasolina, que começou a refletir o custo de produção. Assim, a gasolina passou a ter preço real, bem mais alto ao consumidor.
A viabilidade do milho passa pela industrialização dessa produção dentro do Estado. O entendimento é que, quanto mais milho industrializado mais estabilidade de preços, mais geração de empregos e mais arrecadação para o Estado. Apesar da crescente demanda pelo milho mato-grossense, essa procura ainda é muito pequena diante da imensidão da produção estadual. Isso quer dizer que o espaço para o crescimento das usinas de etanol de milho em Mato Grosso é muito grande, com muito ainda a ser explorado. Diante da proximidade da produção, atualmente tem havido, em um primeiro momento uma concentração das usinas de etanol de milho e de novos projetos da área no médio-norte do Estado. Contudo, a expectativa é que, em um segundo momento, as indústrias possam descentralizar sua atuação um pouco, considerando que haverá uma superconcentração de empresas nessa atividade em uma mesma região.
Usinas totalmente dedicada à produção de etanol de milho no Estado estão construídas e em construção nas cidades de Lucas do Rio Verde, Sorriso, Sinop e Nova Mutum. Essas duas últimas unidades ressaltam-se, são bastante grandes. Contudo, os projetos de usinas continuam florescendo no Estado assim está prevista a operação de uma usina no município de Campo Novo do Parecis, Nova Olímpia, Barra do Bugres, e também projetos de instalação de usinas nas cidades de Primavera do Leste, Campo Novo do Parecis, Rondonópolis, região do Araguaia e Xingu.
Além do etanol as usinas de etanol em Mato Grosso produzem produtos como o DDG (farelo de milho), de grande aceitação no mercado de alimentação animal, o óleo de milho, que pode ser usado para ração animal ou para refino na alimentação humana e também na cogeração de energia elétrica. Todas essas usinas de etanol de milho demandam uma geração muito grande de vapor para movimentação do processo industrial, o que pode ser aproveitado na cogeração de energia elétrica, cuja parte da produção é usada na própria indústria e o excedente vendido no sistema de distribuição de energia. Como se vê essas usinas vem exercendo grande importância não só para os municípios que as abrigam, mas para o Estado de Mato Grosso, considerando ainda a crise financeira enfrentada. Vale observar esse ganho econômico considerando o milho, uma cultura de baixíssimo valor agregado e hoje exportado em maior parte sem agregação de valor.
Assim vários municípios têm recebido grandes investimentos na construção de grandes indústrias, gerando milhares de empregos tanto na parte da construção civil quanto na operação das unidades. Há ainda o incremento na arrecadação de ICMS, com um produto que antes seria exportado sem agregação de valor. Há ainda um fortalecimento de outras cadeias. No atual ritmo, projeta-se que as usinas de etanol de milho no Estado gerem em breve uma demanda de 15 milhões de toneladas de milho produzidas aqui no estado.
A receita obtida apenas com a venda do milho produzido em um hectare de safrinha seria de pouco menos de R$ 2,5 mil por hectare, referente à negociação do etanol e do DDGS no mercado ficaria próxima de R$ 4,5 mil e a originada com a venda de etanol e carne bovina, de cerca de R$ 6 mil. Os valores do milho nesta safrinha foram e estão sendo negociados com valores entre R$ 21,00 a R$ 26,00 a saca de 60 kilos.
Podemos assim já observando o avanço da agricultura na região a cada ano que passa fazer algumas ponderações de acordo com a oferta e demanda em todos os segmentos do agro que fomentam estas atividades que estão ligadas umas às outras de forma direta ou indireta, maior giro financeiro nos munícipios, geração de empregos, aumento de investimentos de empresas, tendo assim principalmente uma melhor qualidade de vida devido a esse desenvolvimento que a agricultura trás. A pecuária e a agricultura, que iram caminhar de mãos dadas no sistema de integração lavoura-pecuária, tendo produção de proteína vegetal da soja e energia do milho também cultivado, terão menores custos nas dietas dos bovinos por terem estes produtos aqui mesmo na região, e posteriormente ao cultivo da soja safra e o milho safrinha integrado com a pastagem na mesma área o pastejo pelo gado. Fazer três cultivos com boas produtividades na mesma área somente em um prazo de 12 meses podemos dizer que são poucas as regiões do país que vão conseguir devido a principalmente o bom índice de chuvas que temos por aqui.
Não há sustentabilidade sem produtividade.