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Por Widmer de Bem
24/02/2026
Formado em Direito, Pós-graduando em Direito Ambiental e Antropologia com Docência no Ensino Superior e empresário com grande bagagem na área de sustentabilidade.
Há mentiras que não nascem com intenção de ferir.
Elas surgem como brincadeira, como opinião mal formulada, como “ouvi dizer”.
Mas crescem.
Vivemos um tempo em que a velocidade vale mais do que a verificação. Receber algo primeiro se tornou mais importante do que saber se é verdadeiro. E, pouco a pouco, normalizamos o hábito de repassar informações como quem repassa um objeto que não quer segurar por muito tempo.
“Não sei se é verdade, mas…”
Essa frase já deveria ser suficiente para interromper qualquer envio. Ainda assim, quase sempre é o início de uma corrente.
Se no começo da era digital tivéssemos aprendido que informação também é responsabilidade, talvez hoje o cenário fosse diferente. Talvez tivéssemos menos conflitos alimentados por versões distorcidas. Talvez menos reputações destruídas em poucas horas. Talvez menos medo construído sobre bases frágeis.
Mas preferimos acreditar que o impacto é pequeno.
Afinal, foi só um compartilhamento.
O problema é que a mentira raramente fica do tamanho que nasceu. Ela encontra terreno fértil na insegurança, na indignação e no desejo de confirmar aquilo que já pensamos. E quando percebemos, aquilo que parecia irrelevante já influenciou decisões, votos, negócios e relações pessoais.
Não é sobre censura.
É sobre consciência.
Da mesma forma que alguém que joga lixo em um terreno vazio pode pensar que é apenas “um saco”, quem espalha uma informação duvidosa pode imaginar que é apenas “uma mensagem”. O acúmulo, porém, transforma o ambiente.
A sociedade também adoece por contaminação.
Extremos se alimentam de narrativas não verificadas. Conflitos se intensificam quando a mentira é repetida até parecer verdade. E o mais curioso é que, muitas vezes, quem compartilha acredita estar fazendo o bem, alertando, protegendo, defendendo.
Mas defender algo sem checar pode ser apenas multiplicar o erro.
Ensinar responsabilidade informacional talvez devesse começar cedo. Ensinar que nem tudo que chega merece ir adiante. Ensinar que dúvida não é fraqueza, é maturidade. Ensinar que parar para verificar é um ato de respeito.
Sustentar uma sociedade saudável exige mais do que leis e tecnologia. Exige caráter no uso da liberdade.
O simples ato de perguntar “de onde veio isso?” já muda o curso de muitas histórias.
Talvez o grande desafio do nosso tempo não seja produzir mais informação, mas aprender a conter aquilo que não constrói.
Porque quando a mentira parece inofensiva, normalmente é apenas porque ainda não vimos o tamanho que ela pode alcançar.